Brasil terá em 2020 os melhores vinhos das últimas décadas

Aposta da Associação Brasileira de Enologia (ABE) é baseada no acerto das vinícolas com a tecnologia, por causa do clima muito favorável e da colheita de uvas excepcionais.

Rodrigo Leitão

O primeiro vinho brasileiro de 2020, o já tradicional Gamay da Miolo, feito a partir de uma uva ultra sensível e que dá na primeira florada, este ano produziu uma bebida diferenciada, muito superior às dos anos anteriores. “Estamos diante da safra das safras”, define o enólogo Daniel Salvador, presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE). Ele explica que o comportamento climático e as condições técnicas atuais foram determinantes para considerar esta safra a melhor de todos os tempos.

Esta avaliação está sendo corroborada por vários enólogos de diversas regiões produtoras do Brasil. “Não tivemos de colher correndo para fugir da chuva. Pudemos esperar a uva chegar em seu equilíbrio ideal”, disse Luís Henrique Zanini, da Vallontano. “Esta vindima foi bela, uma escultura, um monumento que a natureza nos deu. Deste momento em diante é conosco”, comemora o presidente da ABE.

Um dos fatores deste festejo é o grau de açúcar concentrado no mosto do vinho (o suco da uva). Normalmente, para se obter uma bebida correta e boa, este açúcar fica em torno de 20 a 22% em volume de mosto. Este ano, segundo a ABE, a média ficou entre 22,5 e 23,5, o que vai elevar em muito o potencial dos vinhos. É a partir deste açúcar que as leveduras produzem o teor alcoólico. Normalmente, isso é corrigido. Mas no caso do Gamay Miolo, por exemplo, isso nem foi necessário, segundo o enólogo Adriano Miolo.

Na Casa Valduga a expectativa também é grande. “Demos sorte porque tanto nos vinhedos do Vale dos Vinhedos como na região de Encruzilhada, as uvas estão com a maturação fenólica completa” e isso, segundo o diretor técnico da vinícola, Daniel Dalla, vai proporcionar a utilização de grande recipiente franceses para armazenar os vinhos. São os foudres, grandes barricas de carvalho francês, com capacidade para 2.500 litros (normalmente elas variam de 80 a 160 litros). Estes recipientes vêm ganhando espaço na enologia, para garantir qualidade com maior volume guardado para a maturação em madeira.

As uvas Merlot e Cabernet Sauvignon costumam ser colhidas entre 18 e 20 de grau babo. Nessa safra, no entanto, o grau ficou entre 22 e 23,5, o que permite obter vinhos com mais de 14% de teor alcoólico. “São uvas que nos trazem maior potencial alcoólico, mais polifenóis, mais estrutura e potencial de guarda”, comemora ele.

Na Casa Valduga, a preocupação de Daniel Dalla Valle, o diretor técnico da vinícola, é se o segundo container de barricas foudres conseguirá sair dos portos franceses rumo ao Brasil. O primeiro já está a caminho e ele torce para conseguir liberá-lo a tempo de utilizar nesta safra.

“Estamos tendo a oportunidade de colocar em prática tudo o que aprendemos na escola e com a experiência adquirida. É um misto de alegria e satisfação que emociona. Não se faz um vinho sozinho. E este ano, a mãe natureza fez a sua parte de forma esplêndida. Agora, nós, enólogos, precisamos ter a sensibilidade e o conhecimento suficientes para gerar o melhor vinho com equilíbrio, sintonia”, observa Daniel Salvador.

O presidente da ABE destaca que nunca o Brasil, tanto vinícolas, quanto enólogos, esteve tão preparado tecnicamente, com profundo conhecimento, precisão na Viticultura e Enologia, para receber e processar uma matéria prima de tamanha qualidade. “Os primeiros resultados são surpreendentes. Esta safra veio para coroar todo esforço empenhado em anos de trabalho e pesquisa. Não há cidade, região ou estado, que ousa falar mal desta safra. Os elogios vêm de todas as partes, de todos com quem conversei”, sinaliza Salvador.

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